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Economia

Juros altos sufocam famílias e fazem disparar devoluções de apartamentos no Brasil

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Juros altos sufocam famílias e fazem disparar devoluções de apartamentos no Brasil


Distratos cresceram 41,4% no primeiro trimestre de 2026; devoluções de dez incorporadoras ultrapassaram R$ 2 bilhões no semestre.

O sonho da casa própria está se transformando em um pesado compromisso financeiro para milhares de brasileiros. A combinação de juros elevados, orçamento apertado e dificuldades para obter crédito na entrega das chaves vem provocando um aumento expressivo nos cancelamentos de contratos de imóveis comprados na planta, os chamados distratos.

Segundo dados do indicador Abrainc/Fipe divulgados para o primeiro trimestre de 2026, 5.763 unidades tiveram seus contratos desfeitos, número 41,4% superior ao registrado no mesmo período de 2025. A relação entre distratos e vendas chegou a 11,4% no trimestre. Isso significa que, para cada 100 unidades vendidas no período, houve o equivalente a aproximadamente 11 cancelamentos — indicador que não deve ser confundido com a porcentagem de compradores que desistiram de uma mesma safra de contratos.

O problema aparece com força quando chega o momento de contratar o financiamento bancário. Famílias que compraram imóveis anos atrás, em um cenário de taxas menores, podem encontrar agora condições bem mais caras. Reportagens sobre o setor apontam taxas de financiamento na faixa de 10,5% a 14% ao ano, dependendo do banco e do perfil do comprador. O resultado pode ser uma prestação acima do planejado e, em alguns casos, a impossibilidade de concluir a aquisição.

Devoluções bilionárias e pressão sobre as construtoras

O avanço dos cancelamentos também pesa sobre as empresas. Levantamento divulgado pela imprensa, com base em dez incorporadoras de capital aberto, aponta R$ 2,167 bilhões em distratos no primeiro semestre de 2026, alta de 27,7% frente ao mesmo intervalo de 2025. Esses valores representam contratos desfeitos, não necessariamente dinheiro integralmente devolvido aos compradores.

O cenário é especialmente delicado no mercado de médio e alto padrão. Segundo informações divulgadas pela Abecip a partir de dados da Abrainc, a relação entre distratos e vendas brutas desses segmentos atingiu 21% no primeiro semestre de 2026, maior proporção para um primeiro semestre desde 2020. O índice indica pressão relevante, embora não signifique que um em cada cinco compradores necessariamente desistiu de seu contrato.

O custo do imóvel não termina no preço anunciado

Além dos juros bancários, quem compra na planta precisa observar a correção contratual do saldo devedor, frequentemente vinculada ao Índice Nacional de Custo da Construção (INCC). Conforme as condições do contrato e o andamento da obra, o valor ainda a financiar pode crescer durante a construção. A diferença entre a expectativa inicial e o custo efetivo na entrega das chaves pode comprometer o planejamento familiar.

O aumento dos distratos não significa, contudo, paralisação generalizada do mercado. Dados citados em levantamentos setoriais mostram que as vendas de imóveis novos também avançaram no primeiro semestre. O quadro revela um mercado desigual: enquanto parte dos consumidores consegue comprar, outros enfrentam obstáculos crescentes para financiar e manter o imóvel.

O que o comprador deve verificar antes de desistir

Antes de solicitar o cancelamento, é importante pedir à incorporadora uma memória de cálculo atualizada do saldo devedor, simular o financiamento em mais de uma instituição e conferir as cláusulas de correção e rescisão. Os valores que podem ser retidos em um distrato variam conforme o contrato, o regime do empreendimento, a legislação aplicável e as circunstâncias do caso. Por isso, é recomendável buscar orientação jurídica individualizada antes de assinar qualquer acordo.

No centro dessa crise está uma realidade preocupante: a casa própria, símbolo de segurança e estabilidade, pode se tornar fonte de endividamento quando o crédito encarece e a renda não acompanha. Para muitas famílias, a pergunta já não é apenas como comprar um apartamento, mas como conseguir pagar por ele até receber as chaves.

Fontes consultadas

Abrainc/Fipe — Indicadores do mercado imobiliário: https://www.abrainc.org.br/dados-de-mercado/indicadores-publicacoes/indicadores

Viva ABC, 23/10/2026: https://www.vivaabc.com.br/distratos-imoveis-na-planta-em-alta-dos-juros/

Abecip, notícia sobre distratos de médio e alto padrão: https://www.abecip.org.br/imprensa/noticias/distratos-atingem-um-em-cada-cinco-imoveis-de-medio-e-alto-padrao-o-maior-patamar-desde-2020-estadao

Veja — Devoluções de imóveis passam de R$ 2 bilhões: https://veja.abril.com.br/coluna/faria-lima-news/devolucoes-de-imoveis-passam-de-r-2-bilhoes-no-brasil/

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